Maria da Conceição Moreira Salles

Ao assumir a direção do local, em 1983, Maria da Conceição Moreira Salles estipulou como meta deixar a imagem escura e pouco convidativa das bibliotecas tradicionais para trás.

Ela sempre quis — e conseguiu  — que os corredores abarrotados de livros tomassem vida, que estudantes esforçados sanassem suas dúvidas em meio à arte e, principalmente, que aquele leitor adormecido em cada um pudesse se sentir em casa ao entrar na colorida BDB.

A mineira, nascida em Santo Hipólito mas que se considerava belorizontina, chegou a Brasília acompanhada da mãe, que faleceu quando ela tinha 19 anos. Conceição havia feito 65 anos em 26 de novembro passado.

Conceição foi da primeira turma do curso na Universidade de Brasília e, depois de uma especialização na área médica da formação, em São Paulo, voltou à capital e trabalhou em vários locais, como o Hospital Sarah Kubitschek, até assumir o BDB.

A instituição que, apesar de ter o nome da capital do país é federal, não carrega o nome demonstrativa à toa. Ela é, atualmente, o grande modelo de biblioteca pública no país e o mérito é de Maria da Conceição. “Ela estava sempre disposta a criar novos projetos, experimentar, e isso serviu de exemplo para o Brasil inteiro, criando um modelo do que deve ser feito nas bibliotecas públicas”, lembra Ana Maria da Costa Souza, pesquisadora e responsável pelo setor de projetos especiais da biblioteca.

Entre os projetos que encabeçou estão o Quinta Sonora, de concertos musicais didáticos; o Tira Dúvidas, que colocou professores voluntários à disposição para retirar qualquer dúvida de quem estuda na biblioteca; e o Tele Idoso, que leva obras aos mais velhos que têm dificuldade de locomoção. “Ela era uma pessoa muito dedicada e queria um trabalho de qualidade. A biblioteca tem essa projeção por causa do seu esforço em fazer sempre o melhor. Conceição sempre teve uma visão totalmente diferente de biblioteca. Ela via algo dinâmico, vivo e queria que quem trabalhasse aqui enxergasse da mesma forma”, frisa Anna Paula Ayres Seabra, responsável pelo setor de promoção e divulgação cultural da BDB.

Em um ambiente que respirava saber, Maria da Conceição foi conhecendo amigos: artistas, intelectuais, professores. E, deles, ganhava sempre reconhecimento. “A Conceição foi das pessoas mais generosas, mais sincronizadas com as necessidades de Brasília. A maior qualidade dela era ser amiga dos amigos e amiga dos amigos dos amigos — tamanha era sua generosidade. O que ela fez para a promoção da cultura, a assistência que ela oferecia aos estudantes, aos artistas da cidade, isso a gente nunca pode esquecer”, garante a editora de Opinião do Correio Braziliense, Dad Squarisi, amiga pessoal de Conceição.

O diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, Antônio Miranda, disse que ela moldou a forma como os bibliotecários do país hoje encaram o ofício. Segundo ele, Conceição, com seu viés de animadora cultural, tornou a biblioteca um espaço em que a comunidade não tem receio de entrar, usar e se integrar. “Ela ainda foi uma figura ímpar como ser humano, sempre disposta a transformar seu espaço de trabalho em um local de vivência. Conceição representa o que há de melhor na cidadania de Brasília.”

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